A Chave Analógica (4ª postagem)

7ª PARTE -QUESTÕES NÃO RESOLVIDAS

 “Tudo a seu tempo Sr. Talis. Primeiro vocês necessitam das respostas sobre algumas questões que deixei em aberto. Como sempre alguns de vocês não ficarão satisfeitos com as explicações que vou dar. Alguns vão rotulá-las como fantasiosas ou absolutamente sem sentido. Mas é assim que as coisas precisam ser levadas adiante. Acreditem: se aqui eu contasse tudo o que está em jogo, como numa narrativa jornalística, digamos assim, um elo importante existente entre nós se romperia, e o trabalho até agora desenvolvido seria todo jogado fora… na verdade isto já me aconteceu uma vez e não quero repetir o erro! Antes que perguntem qual o elo a que me refiro eu lhes respondo: é a mágica, o mistério, a aventura de dar um passo sem saber qual é o seguinte, pois esta é a essência do caráter de vocês. Vocês querem as respostas agora, já, exatas, lógicas, bem encadeadas, num roteiro linear e límpido, mas, no momento em que tiverem todas as respostas o mistério morrerá, e o interesse de vocês se transformará de uma dúvida interessada em uma dúvida concreta.”

Todos estávamos fortemente ligados na narrativa de Gerson. O tom solene dava a entender que aquela reunião teria um desenrolar diferente de tantas outras anteriores. Todos esperávamos ansiosos pela continuação.

“Em alguns momentos vocês vão considerar o que digo como um devaneio, ou uma história fantasiosa sobre civilizações antigas. Interpretem como quiserem! A partir deste momento tudo que vocês não ignorarem será de grande valia, mesmo que seja apenas para manter a ponte mágica que nos une.”

“Talis! Com você a conversa será demorada e em outro dia! Evidentemente se ainda for de seu interesse, gostaríamos que fizesse uma visita ao criador de porcos de Candeias, mas isto não será agora” Talis suspirou momentaneamente aliviado. 

“Primeira pergunta: quais são as nossas armas?” Houve um movimentar-se inquieto e inseguro entre os presentes, e como Gerson parecia aguardar a resposta de alguém, Juliana tomou a frente e respondeu:

“Eu acredito, ou é desta forma que racionalizei a minha ação em Candeias, eu tenho a habilidade de detectar a localização de um poltergeist, que, de uma forma que não compreendo, não me atinge, e parece se acalmar quando mentalizo minha chave analógica” 

“Uma boa definição!” Exclamou Gerson.

Depois se voltou para mim e para Talis e disse: “Vocês dois também não são agredidos pela força a que Juliana chamou portegeist – que não deixa de ser um bom nome, embora eu prefira chamar de magista – no entanto vocês tem a capacidade de agredir esta força. Não uma agressão destrutiva, mas uma agressão restritiva. O magista se sente impelido a abandonar o lugar em que está alojado. Ele pode fazer de tudo para assustar vocês quando na verdade está se defendendo e desesperado para não ter que mudar de lugar. O magista é uma força monumental que tem a mentalidade de uma criança. Ele quer brincar. Ele quer se sentir seguro. E vocês, aos olhos dele, são como pessoas más e detestáveis. Um magista não pode atingir diretamente vocês mas pode jogar objetos ou usar de outros recursos indiretos para se defender. Para que vocês tenham sucesso ao enfrentá-lo é fundamental que o mandala que cada um recebeu seja mentalizado em seus mínimos detalhes. O momento em que isto ocorre deve ser muito bem arquitetado, pois eu, a Liana e o Julio, temos que estar em sincronia perfeita com vocês. Nós somos a outra ponta. Nós temos as armas para prender o magista. 

Minha cabeça doía muito! Gerson nunca fora tão azul! Talis, quieto desde o início, não se conteve e perguntou: “Prender a coisa? Mas afinal o que é…do que é feito, sei lá! Como você pretende fazer isto com uma força, pelo que se deduz, incorpórea? E para quê? Esta piração ainda vai se desdobrar de que forma?”

“Tenha calma. Vamos ligar os fatos. O desenvolvimento de Juliana começou quando Alexandre resolveu não pertencer mais ao nosso grupo. Ali eu disse que de uma forma indireta havia se aberto uma porta que nos seria favorável. Juliana conseguiu perceber a existência do magista. Sabemos que o magista é uma força poderosa, que só de uma forma especial pode ser controlada. Agora vou dizer para vocês de que forma podemos usar esta força a nosso favor. Ou de que forma poderemos cumprir o nosso objetivo como grupo. A processo de como podemos prender o magista é irrelevante. Na verdade, para o bem de vocês: Juliana, Talis e Ronaldo, nem é interessante saber como isto será feito. Mas acho importante que todos saibam que há um grupo de inimigos que tentam de todas as formas impedir que tenhamos sucesso. É interessante saber por que estes inimigos agem desta forma.” Respondeu Gerson. 

“Mas antes quero que todos saibam que hoje recebi a notícia do falecimento de Alexandre. Isto já estava escrito mas a morte nunca deixa de nos tocar. É um bom momento para ficamos em silêncio e pensar em tudo o que foi dito até aqui.”

8ª PARTE – HISTÓRIAS ANTIGAS E ELOS PERDIDOS

E realmente se fez um momento de silêncio. Um silêncio constrangido. Cada um de nós elaborando a própria relação com o controverso indivíduo que todos conhecíamos como Alexandre. Uma personalidade agressiva e envolvente. Inteligente e que possuía os elementos considerados úteis para ser um advogado de sucesso. Que pertencera a um grupo maluco que esperava encontrar, convivendo com Gerson, respostas às velhas questões sobre os mistérios da vida, da origem, do destino, e dos limites do homem frente à realidade e seus aspectos mágicos. Um personagem jovem que usara um poder sobre o qual não tinha domínio e fora vitimado por este poder. Um jovem que convivera conosco e agora estava morto.

O silêncio foi suavemente preenchido pela voz monocórdica de Gerson quando iniciava seus longos monólogos.

“Quando as primeiras civilizações humanas se estabeleceram na Mesopotâmia, e nos vales do Indo e do Nilo, a presença dos Nifilim sobre a terra estava em seu declínio. Mas seu conhecimento ainda era colossal. Na tradição suméria se afirmava haver uma relação íntima, genética, entre O Nefilim Enki e os descendentes do gênero Homo sapiens. Enki era considerado um deus benéfico aos olhos dos primeiro humanos que viveram entre o Tigre e o Eufrates. Ao contrário da tradição judaico-cristã que o representava como a serpente que mostrou ao homem o fruto do conhecimento para o bem e para o mal. As castas inferiores dos Nefilim, os Anunnaki, viam no crescimento cultural do homo sapiens o fim de sua supremacia e, com o apoio da elite ainda reinante, liderada por Enlil, irmão de Enki, por todos os meios tentaram impedir que Enki transmitisse conhecimentos aos seus protegidos. A história dos Nefilim na Terra, seus objetivos e suas cidades pré-diluvianas na mesopotâmia. A relação entre a necessidade de mão de obra no trabalho de mineração na África e a transformação do homo erectus em um trabalhador escravo é uma longa e complexa história que culmina no surgimento do próprio gênero humano moderno, numa trama rica e polêmica que dá origem a todas as culturas religiosas que existem atualmente sobre a face da Terra. Mas isto ocorreu há mais de 6 mil anos e é um outro capítulo, muito interessante, mas que foge do nosso objetivo imediato, que é a mobilização de forças levadas a efeito por Enki para que o conhecimento de sua espécie permanecesse ao alcance dos humanos, para ser acessado e utilizado gradativamente, de acordo com o grau de maturidade de nossa espécie, no que a tradição convencionou chamar de registros acádicos.” 

Gerson fez uma pausa, olhou em volta, mas não houve perguntas.

“Todos sabem que a palavra átomo perdeu seu significado há muito tempo. Hoje as partículas subatômicas, que compõe o núcleo do que antes era considerado indivisível, são comprovadamente compostas por outras partes menores… e em breve se saberá que o interior de cada uma destas partes, aparentemente, será composto por um paradoxal e incongruente nada! E digo aparentemente, porque a princípio nossa tecnologia será incapaz de observar a magnífica rede que une cada um destes interiores vazios. Um banco de dados que escapa de nossa compreensão dimensional. Uma porta não para outra dimensão, mas para uma miríade de possibilidades paralelas. Onde cada partícula, que os teóricos estão chamando de quark, se conecta com qualquer outra em qualquer parte do universo através de seu nada interior.”

Gerson fez uma pausa maior dando a entender que mudaria o rumo na narração mas que as partes tinham relação entre si.

“Existe uma brecha entre a nossa dimensão e aquela em que os registros acádicos estão armazenados. Esta pequena abertura, esta fresta, é dinâmica, e está presente em todos os lugares. Realmente em todos os lugares onde existir um núcleo de um átomo, onde existirem próton e nêutrons, onde existem os pequenos quarks em seus interiores.”

“Sabemos que duas forças de mesma polaridade se repelem. Dois prótons positivos se repelem. Então como é possível mantê-los no interior dos núcleos sem que haja uma desintegração total? Isto é possível graças a um equilíbrio dinâmico que ocorre entre os 3 quarks que compõem um próton ou um nêutron. Na prática, a volubilidade entre as cargas gera um artifício tão fugaz e oscilante que as positividades existentes não chegam a se estabelecer o tempo necessário para a repulsão.” 

Alguns de nós se mexeram inquietos pois naquela época estes conceitos estavam apenas nascendo e o desconforto pela não compreensão se tornou evidente. Julio comentou: “Gerson! Podemos até acreditar em sua explanação… já li em algum lugar que estes conceitos não passam de uma ficção matemática, mas, no que nos diz respeito, como podemos entender a tal abertura…e onde entram os Anunnaki e Enki nesta história?”

“A abertura pode ser encontrada na colisão de partículas! Há experimentos neste sentido. Num determinado momento, uma partícula até então desconhecida, abrirá uma porta entre estas dimensões. Para que isto aconteça a colisão que se pretende deve acontecer. Ela não pode ser evitada. O que os Anunnaki pretendem, pois alguns deles ainda vivem entre nós, é que o ser humano seja incapaz de obter este avanço tecnológico que leve ao encontro da brecha entre as dimensões. O que Enki nos deixou, pois ele não está mais entre nós, é um truque para que os Anunnaki nunca consigam o seu intento.”

“Pois bem! Aqui entra um pouco de mágica! Pelo menos aos nossos olhos pragmáticos e acostumados a esta pequena ilha dimensional em que todas as coisas devem seguir as regras de Newton ou não existem.”

“O magista, embora seja uma força poderosa é imatura. Ele pertence à dimensão onde estão os registros acádicos. Passou para nossa dimensão por ação de alguma manobra Anunnaki. Avaliem o magista como uma criança. Ele quer brincar, não importa onde e nem com o quê. Neste momento usa sua força brincando com os porcos, como Juliana nos descreveu. Nosso objetivo é recolocá-lo em sua verdadeira dimensão. Esta foi a herança que Enki nos deixou: enquanto os magistas, que sabemos serem três, estiverem em sua dimensão, o brinquedo favorito deles será infernizar a vida dos Annunaki. Nós temos os meios de devolver este magista para o lado de lá. Assim mantemos este jogo, procurando nunca perder a possibilidade de um acesso total ao registros acádicos. Acreditamos que apenas uma vez os três magistas estiveram num mesmo tempo em nossa dimensão. Isto aconteceu durante a Idade Média, embora nunca tenham deixado de existir grupos, como o nosso, que persistiram na luta contra os Anunnaki”.

Eu ponderei: “Você concorda, Gerson, que mesmo com tantos sinais insólitos vivenciados em sua companhia, esta trama toda fica fantasiosa e inverossímil. Os elementos básicos ocorrem em lugares, ou dimensões, como você expôs, às quais não temos acesso. Fica difícil acreditar numa força infantil, que não pertence à nossa dimensão, e que foi criada para manter afastados pretensos inimigos da raça humana de um manancial de conhecimentos. Mesmo depois de Talis fazer, seja lá o que ele necessita fazer para que o plano de devolver o magista a seu mundo funcione, nós, os observadores, teremos apenas uma opção:ajudamos a salvar o mundo de uma nova idade das trevas e acreditamos nisto como um ponto de fé. Ponto. Pois, na prática o mundo continuará a girar da forma que conhecemos…e ainda: as chaves analógicas nunca nos dariam acesso aos registros acádicos como você nos fez crer no início, ou você teria algo a acrescentar!”

“É, de certa forma será bom vermos o mundo girando da forma que estamos acostumados…as outras formas talvez não sejam agradáveis. É verdade, as chaves analógicas ou mandalas não dão acesso direto aos registros…eu menti! Ou torci a verdade para que vocês permanecessem fisgados. As chaves vão ser úteis, mas de outra forma… aguardem e verão! Mas tenho umas ressalvas. Os magistas não foram criados para este fim. Eles já existia muito tempo antes dos Nefilim. Enki apenas os prendeu entre as duas dimensões. Aproveitou que são entidades que não evoluem e têm em sua essência unicamente o desejo de brincar e os colocou num lugar onde poderiam brincar eternamente, enquanto impediam os Anunnaki de nos prejudicar. Outra correção: os Anunnaki não são exatamente inimigos da raça humana. De certa forma eles apenas pretendem preservar um conhecimento que consideram propriedade sua e, possivelmente, nos julguem, inaptos ou inferiores. Talvez até temam o uso que a nossa espécie possa fazer de tal conhecimento. Nós, por nossa parte, pretendemos continuar a evoluir, ascender, e quem sabe, chegar ao Princípio!”

“Princípio?” Perguntou Luana. “Que Princípio?” 

9ª PARTE – DEVANEIO 

Gerson fechou os olhos e começou uma estranha resposta:

“No princípio e no fim era o nada e o Princípio pairava sobre a eternidade espaço-tempo. Há quantos éons? O Princípio observava o caótico modificar do nada. A matéria perdera todas suas formas, e a energia, que era ao mesmo tempo a própria essência do Princípio, parecia, gradativamente, obedecer a leis físicas de um limiar cósmico nada promissor. O Princípio sabia que aquilo que chamamos de nada era o princípio do tudo. Sabia que não havia diferença entre estes dois conceitos aparentemente contraditórios, mas sabia que isto causaria (ou já havia causado – já que o tempo era apenas uma questão de ótica) uma grande confusão em estágios em que o Princípio procurara sua maturidade…!) Afinal o Princípio não seria possível sem o Fim. Afinal o Fim era o objetivo do Princípio. Afinal a tendência ondulatória do grande mistério cósmico criava este aparente paradoxo.”

“O nada apontava para um estágio entrópico nulo. As infinitas espécies orgulhosas que ergueram civilizações, já há bilhões de anos, haviam voltado ao pó. A luz dera lugar à escuridão total. Os famintos horizontes de eventos dos engolidores de galáxias agregaram-se aos elementos da grande atração. O Universo agonizava.”

“Para o Princípio o centro do universo era o lugar ocupado por ele. Qualquer lugar era o centro! A expansão universal, com suas acelerações misteriosas, levando pela atração ao infinito impossível as colossais massas estelares, só colocaram todas as coisas materiais em um único lugar: no lugar ocupado pelo Princípio. Para o Princípio era irrelevante a diferença entre os conceitos opostos de: para fora até o infinito inimaginável ou: para o centro até uma singularidade única. O Infinito distante era o próprio centro único! pois o centro único era qualquer ponto onde se encontra o Princípio, e o Princípio se encontrava em qualquer lugar. Aquilo que se distanciava na verdade caía. Caia para a singularidade final. Caía para a singularidade inicial. E este mistério significava apenas uma verdade: o universo agonizava. E com o fim do universo, e daquela especial organização da energia, seria o fim do Princípio.”

“O Princípio, acostumado aos bilhões de anos, percebia, já há algum tempo, que a temperatura se modificava. O gelo do universo agonizante dera lugar, paulatinamente, a um tênue mas crescente calor. A singularidade se aproximava. O tempo, aparentemente eterno, fluindo na mesma direção e num mesmo ritmo há incontáveis eras, ganhava um elemento novo: aceleração!”

“O Princípio sabia que quando há aceleração no elemento temporal e uma singularidade se aproxima um grande evento acontecerá: o fim de todas as referências dimensionais definidas pelas leis físicas daquela ondulação universal.”

“Este é o Princípio, Luana. E para a nossa espécie fazer parte dele contamos em breve com as ações de nosso bravo guerreiro Talis! Não é Talis?” 

Talis acordou para a realidade sentindo o peso de toda a evolução sobre seus ombros.

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2 Comments on “A Chave Analógica (4ª postagem)”

  1. Alan Cichela Says:

    Lerei com calma… e lhe respondo na sequência.

    Nossa muito boa tua conclusão sobre a prostituição da arte.
    Realmente, refinado é aquele que morreu duas vezes.


  2. [...] E é isso. Mais uma vez desculpe pela demora, mas dessa vez você me deixou confuso. Bom final de semana. —————————— Resposta da: A Chave Analógica (4ª postagem) [...]


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