A Chave Analógica (5ª postagem)

Posted 10 11UTC ambSat, 11 Jul 2009 00:52:09 +000052Sábado 11UTC 2006 by romacof
Categories: Histórias, Lendas,

10ª PARTE – SAIDA DE CENA E NOTÍCIAS DO FRONT

 Na semana seguinte a minha vida foi modificada radicalmente. A realidade crua das necessidades financeiras me obrigaram a largar Porto Alegre. Mesmo sem fontes definidas de renda iniciei uma nova aventura aos trinta anos. Em um único dia me desliguei das clínicas com as quais ainda mantinha alguma relação, e, como um cigano, eu e minha família nos mudamos para Itapeva, em busca de um lugar onde pudesse exercer minha profissão de forma independente; livre dos monopólios que sufocavam o exercício da medicina na capital. Nós e toda mudança acomodados em um caminhão emprestado, sem casa para morar, sem um lugar para instalar um consultório, sem vínculo com qualquer órgão público, apenas com a cara e coragem. Era o dia primeiro de maio de 1980. Passados 29 anos é possível resumir as razões daquela atitude em uma único rótulo: sem saída. Um emaranhado de questões desonestas de cunho político me pressionaram de forma mesquinha naquela direção. Todos os fios deste novelo, por si só, são uma outra história, repleta de curiosidades envolvendo vários nomes que hoje a mídia apresenta como personagens importantes da administração e dos desvios públicos. Estes capítulos, embora  interessantes, serão aqui sumariamente omitidos, por serem irrelevantes no contexto da história que me propus a contar. Portanto, abandonei o portinho e fui procurar morada a beira mar, começando do zero, longe do grupo guiado por Gerson e suas histórias mágicas, e sem vínculos freqüentes ou possíveis  com Luana, Juliana, Julio e Talis. Naquele momento esta era uma das minhas intenções: cair fora daquele mundo enigmático e impalpável. Não podia imaginar então que nunca mais teria um contato real com qualquer um deles.

Em uma semana atendi meu primeiro paciente. Em seis meses tinha um consultório capaz de manter as necessidades de minha família. Em um ano eu era um membro daquela nova comunidade, integrado em suas histórias sociais e políticas. Em dois anos estava envolvido no processo de emancipação da cidade, e participava de todos os eventos e reuniões das lideranças locais. Foi quando começaram a chegar as cartas de Gerson. 

A primeira carta permaneceu fechada por um bom tempo num canto da mesa. Qual o interesse do velho? Dois anos haviam se passado. Um tempo suficiente para que o enredo provável, dos eventos envolvendo o grupo ao qual eu pertencera, tivesse se desdobrado de uma forma inimaginável. A minha decisão de me afastar em definitivo daquela viagem louca lutava com a curiosidade em saber como, afinal, haviam se saído os antigos companheiros. O envelope fechado exercia a função de um imã. Ele estava ali ao alcance de minha mão. Dentro uma história escrita por um indivíduo que eu conhecera muito bem e sabia o quanto ele era capaz de manipular a atenção de um curioso para atingir os seus objetivos obscuros. Mas que mal faria ler a carta? Qual efeito mágico o seu conteúdo poderia ter sobre a minha ferrenha intenção de me afastar das ações do grupo de Gerson? A curiosidade acabou vencendo… a mesma que matou o gato! 

Abri a carta! Iniciava com todos os lugares comuns que se costumava usar quando as cartas ainda eram um meio de comunicação! Contou que Luana e Talis haviam casado! Um acontecimento que eu consideraria improvável dois anos antes. Resumia a situação dos demais com um simples “os outros estão todos bem”. Mostrava interesse e preocupação com minha atividade profissional e desejava que todos os meus sonhos estivessem se realizando. De passagem esperava que eu ainda os considerasse como amigos e companheiros de uma história inacabada, e finalizava colocando-se a disposição para contatos futuros “em nome da grande consideração” que tinha pela minha pessoa. Uma carta que transformada em conteúdo matemático poderia ser resumida a zero. Li a carta várias vezes tentando descobrir nas entrelinhas um objetivo oculto, pois conhecendo Gerson não conseguia imaginar aquele velho matreiro perdendo tempo e escrevendo de próprio punho frivolidades para um indivíduo que ele não via há 2 anos, e, que de certa maneira, havia abandonado o jogo, ou a luta, no meio do processo, com uma despedida extremamente objetiva: as minhas necessidades reais sobrepujavam, e muito, qualquer vontade em permanecer naquela procura mística e pouco produtiva. 

Devo ter ponderado por uma semana a possibilidade ou a necessidade de uma resposta. Poderia ser considerado deselegante não responder. Enfim respondi. Talis e Luana casados? E Juliana e Julio, como estavam? E afinal! Como se saira Talis na empreitada em Candeias? Como terminara a história que previa a captura, ou as ações envolvendo o magista? Pronto! Eu estava fisgado.

Durante 6 ou mais meses mantive como seqüência uma insólita correspondência com o Gerson. Houve longos comentários filosóficos sobre as invólucros energéticas que revestem o corpo humano como “camadas de uma cebola”. Sobre a interação das camadas externas de duas ou mais pessoas  quando interagem fisicamente ou simplesmente se aproximam. Sobre a vibração, perceptível nas costas e na nuca, quando o invólucro relacionado com os chacras entra em ressonância e permite o que ele chamava “manobra de saída”. Sobre o sistema de procurar, na hora de dormir, o “ponto de ressonância”, situado acima do campo visual. Sobre viagens fora do corpo, e sobre encontros com outros viajantes durante estas hipotéticas saídas. 

O cepticismo sucumbiu à envolvente e detalhada narrativa de Gerson. Quando percebi eu não só sustentava uma frequente troca de cartas como também procurava efetivar os processos que eram descritos. E entre uma loucura e outra chegavam as notícias aparentemente soltas: Talis falhara em Candeias. Não conseguira usar seu mandala. O terror embotara sua capacidade de concentração. E o magista, ao se sentir ameaçado, causara uma grande destruição nas estruturas que englobavam o locais de criação dos porcos e frigoríferos. Talis conseguira escapar com fraturas em uma das pernas. E o magista fugiu! Abandonou aquele local onde poderia ser facilmente encontrado e seu destino agora era incerto. Neste ponto o velho deixava transparecer o contratempo que isto acarretara aos planos há tanto tempo elaborados. Gerson enfatizava que, nestas situações, era importante ter uma visão mental perfeita do mandala, e ter a convicção de que o “visualizador” seria inatingível por qualquer ato do magista se mantivesse o equilíbrio e não se deixasse envolver pelo medo. Eu, enquanto lia aquela história como uma novela estranha ocorrida numa terra distante, percebia que a visão que eu próprio tinha do meu mandala permanecia nítida em minha memória, como um complexo ato reflexo. E ali, embora todos os elementos já estivessem a minha disposição para uma perfeita análise e conclusão, eu não percebi que continuava a ser um peão no jogo de Gerson.

11ª PARTE – VIAGENS E ENCONTROS NOTURNOS

Qual a diferença, ou a relação, entre a alucinação e a realidade? A realidade é a alucinação que você pode compartilhar com alguém. A alucinação pode ser a realidade que só você tem a capacidade de perceber. Neste caso fique bem quieto! Avalie bem se você não está em um estado de percepção alterada. Quem sabe sob efeito de algum elemento externo, como uma substância química, ou você pode até estar sendo vítima de uma manobra ilusionística. Mas não se esqueça de que a realidade, convencionada como tal pode também ser um logro coletivo. Não pense que os outros são normais só porque não vêem o que você está vendo. Eles podem ser cegos, ou inábeis, ou estarem fingindo para não serem tachados de loucos. O normal não é aquele que não tem alucinações, mas aquele que consegue conviver com elas. Num determinado momento você pode encontrar uma outra pessoa que compartilha com você a mesma percepção considerada enganosa. Então a probabilidade de que sua ilusão não seja afinal tão irreal cresce; e cresce na mesma proporção de que tenhamos dois alucinados! Ora! Que dilema! Não é fácil definir a normalidade

Alguns dizem que o melhor é o movimento de se sentar na cama, e depois, se levantar. Antes de saírem naturalmente pela janela ou pelo telhado. Naturalmente! Eu prefiro rolar para trás. Quando se sente a nuca formigar eu levanto as pernas e as jogo para cima, sobre a cabeça, como quem vira uma cambalhota ao contrário, e assim fico normalmente de pé num só movimento. Geralmente no cômodo contíguo, é claro, pois é costume dormir com a cabeça perpendicular a uma parede. 

As primeiras vezes são cambaleantes, como quem está aprendendo a andar. Principalmente por que no início não se tem consciência do que está acontecendo. Não é um ato premeditado. E estas surpresas geram situações confusas. 

Lembro de cair da cama. Repentinamente estava sentado no chão com as costas apoiadas na cama. As pernas estendidas no espaço entre a cama e o guarda-roupas. Fiquei perplexo com o fato de estar naquela situação. Embora sonolento tinha perfeita noção espacial do meu corpo e via os objetos a minha volta com extrema nitidez. Ato reflexo procurei me mover para sair daquela posição ridícula. Levei a mão esquerda para cima da cama. Eu procurava apoio para um impulso que me permitisse sentar na beira da cama. Mas minha mão segurou uma perna suada e peluda de um indivíduo que estava deitado em meu lugar. A minha mão segurou a minha própria perna. Como um elástico que é repentinamente solto após ser esticado ao máximo eu, num breve instante, estava absolutamente desperto e vi a mim mesmo sentado no chão segurando a minha perna direita, e, imediatamente, sentado na cama, tentando entender aquele perceptível paradoxo.

O tempo me transformou num viajante com certa prática. Conseguia induzir a ressonância necessária que se transmitia em direção à nuca e permitia a saída do corpo. Ansiava pela  hora de conciliar o sono; deitar para dormir  se  transformara num momento esperado. A hora de viajar.

A rotina do procedimento não evitava o ineditismo nas viagens. Em minhas viravoltas eu atravessava a parede e a partir da sala ao lado ganhava a rua geralmente pela janela. Na primeira vez protegi a cabeça com os braços esperando o estilhaçar da vidraça. Depois não me preocupei mais com estes pequenos detalhes da impenetrabilidade da matéria. 

Uma constatação que para mim foi uma grande surpresa: o tráfego de viajantes noturnos é intenso. Impressionantemente intenso! Mas a impressão é a de que a maioria esmagadora destes viajantes não sabe que se encontra num estado alterado de consciência. Eles vagam sem um rumo, desorientados, refletindo, possivelmente, o próprio sono. Porém há aqueles que nitidamente sabem o que estão fazendo. Um maior número percebe você mas o evita. Passam ao longe, fugidiamente. Poucos são amigáveis. Fazem uma avaliação relativamente simpática de suas intenções e partem em busca de seus objetivos. Alguns são francamente hostis.

Uma noite decidi pairar sobre Itapeva, aproveitando a vista admirável, distraidamente, absorto com os ângulos incríveis, e feliz com aquele conhecimento privilegiado. E como surgida do nada materializou-se ao meu lado uma menina aparentando 9 ou 10 anos. De cabelos longos e rosto suave. Usando um vestido esvoaçante. A imagem de um anjo. Fiquei surpreso com a aparição repentina e mais ainda com aquela  rara aproximação. Ele era linda e eu fiquei encantado com aquele prazer inesperado. Quis chegar mais perto e tentar um diálogo mas logo percebi que ela mantinha uma distância constante de mim. Disse, ou pensei: “Não tenha medo! Só quero conhece-la!” E ela prontamente respondeu, ou pensou: “Sou Deca! Sei quem você é! e sei o que você quer!” Aquela resposta me desconcertou, mas tentei uma nova abordagem: “Não acredito que nos conheçamos! Podemos ser amigos…!” E então algo surpreendente aconteceu: a linda menina sofreu uma brusca metamorfose enquanto se aproximava rapidamente de mim. Num momento era uma doce fada mirim e no segundo seguinte um homem gordo, usando uma toga imunda, com uma face enegrecida e maligna, coberta por uma barba rala e irregular. Aquele personagem me alcançou de forma instantânea e cravou dolorosamente o dedo indicador no meu peito, mostrando dentes tortos e amarelados. Enquanto falava senti seu hálito desagradável: “Vou repetir só mais esta vez! Sou Deca! Sei quem você é e sei o que você quer! Sei onde você vive e sei quem são os seus filhos! Caia fora daqui!” E naquele instante eu estava em minha cama. Sabendo que não fora um sonho. Tentando me orientar frente aquele episódio incomum.

Após o encontro com Deca passei a fazer viagens mais curtas e mais cuidadosas. Limitava-me a subir no telhado e sentar na cumieira. Nestas ocasiões, seguidamente, nossa collie, Babusca, latia e olhava em minha direção como se percebesse minha presença sobre a casa. Um fato admirável que observava nestas oportunidades era a luminosidade da noite, da cadela, dos pássaros dormindo nas árvores ao lado da casa, dos pequenos insetos que voavam ou circulavam pela grama lá em baixo. Foi numa noite destas que um pensamento chegou até mim: “Permite que me aproxime?” E o impressionante foi que eu sabia que a pessoa que pedia permissão para se aproximar era o Julio. No segundo imediato ele estava sentado ao meu lado. “Vou resumir!” O pensamento de Julio penetrava em minha mente. “Juliana esteve recentemente em Itapeva. O Magista está aqui. Nós precisamos de você. Não se preocupe com Deca! É um Anunaki tentando entimidá-lo. Ele não tem poder nenhum. Você saberá o momento certo em que deve agir. Nós estaremos preparados para cumprir a nossa parte. Depois, quando o trabalho estiver concluído,  nos encontraremos. Não há nada a recear, é só desempenhar o papel que lhe cabe. Estamos todos confiantes. O velho acredita em seu poder.” Por um instante Julio ficou ali, como se houvesse mais alguma coisa a dizer, e depois desapareceu. Eu passei a noite sentado no oitão da casa, numa das extremidades da cumieira. Quem poderia dormir com um “barulho” desses?

12ª PARTE – O ENCONTRO COM O MAGISTA

A região de Itapeva costuma ser acometida por intensas tempestades elétricas. E naquela noite o céu veio abaixo. Chovia impetuosamente. Meus interesses se resumiam em ler um livro e esperar o sono. Mas o telefone tocou e os meus interesses foram totalmente desconsiderados. Na vida de um médico este fato costuma ser comum, mas aquela não seria uma noite comum.

Um táxi veio me buscar para atender uma criança numa localidade próxima. Era uma casa pequena cuja porta principal ficava na lateral, sem uma soleira ou um pequeno telhado que a protegesse da chuva. Desta forma o motorista manobrou o carro até praticamente acoplar a porta do veículo com a da casa. A dona da casa abriu a porta e eu abri a do carro e praticamente saltei para o interior da casa sem escapar totalmente da chuva intensa.

A senhora se chamava Lídia Lutz, tinha 3 filhos, e eu já a conhecia de um atendimento ou outro no pequeno posto de saúde da cidade. Ela era franzina e assustadiça, e o cabelo muito curto a deixava com traços masculinos. Usava um pijama surrado e uma coberta sobre os ombros para se proteger do frio. A casa, de madeira, tinha uma planta simples: a peça mais longa, a esquerda, onde eu me encontrava, cumpria as funções de sala e cozinha. Dois outros aposentos, supostamente os quartos, se comunicavam diretamente com o principal e estavam as escuras. Não vi uma porta que indicasse a presença de instalações sanitárias no interior da casa. Nestas pequenas moradias do interior é habitual colocar este recinto fora da estrutura principal, geralmente numa área de serviço nos fundos. 

O perfil que eu já tinha traçado de Lídia, fruto dos contatos anteriores, era de uma pessoa depressiva, com traços paranóides, e uma espiritualidade confusa onde a fé católica se misturava a crendices e a uma imaginação fértil. Nunca revelava inteiramente seus medos e minha conclusão primária era de que deveria ter problemas de relacionamento com o marido. Este, um caminhoneiro, naquele dia estava ausente, o que aumentava e justificava a ansiedade da mãe pela saúde do filho. 

“Quem está doente?” Perguntei. E Lídia, com os olhos muito abertos demorou um tempo intrigante para responder: “ O Jonas! Ele está ali no quarto de trás”. O mobiliário era muito simples e surrado. Acomodei minha bolsa sobre uma pequena mesa, ainda com restos da última refeição, e segui com as perguntas normais: “O que aconteceu? Teve febre,? aparentou alguma dor? Está bom da barriga?” Novamente ela demorou para responder enquanto me olhava de uma forma indefinida. Respondeu enfim: “É melhor ver!” “O que será que tem esta mulher?” Pensei. “Parece assustada e desorientada.” Resolvi mudar o rumo da conversação: “Lidia! Está tudo bem contigo?” Ela balançou freneticamente a cabeça numa negativa enfática, enquanto abria ainda mais os olhos naquele rosto magro, quase como num pedido mudo de socorro.

“A criança morreu!” Este foi o primeiro pensamento que me veio à mente. “Ela está desesperada e nega o fato. Quer uma confirmação? Quer um milagre?” O mal estar resultante do confronto com uma situação deste porte não cabe em qualquer descrição. Lídia foi até o quarto e acendeu a luz mas não passou da porta. Havia uma cama de casal. Possivelmente o menino dormia com ela quando o marido viajava. Ele estava deitado, e parecia dormir. Eu sentia meus ouvidos zunirem e a boca amarga. Não é possível encarar com naturalidade um momento destes. Quando uma criança está envolvida toda a frieza profissional morre junto com o paciente.

Sentei na beira da cama e busquei o pulso do menino. Aparentava uns seis anos de idade. Havia pulso! O menino dormia profundamente. Respirava. Estava vivo! Senti um grande alívio mas ao mesmo tempo confuso. Lídia permanecia na porta, sem entrar no quarto, inquieta e assustada. Eu rápida e sumariamente avaliei os sinais do pequeno paciente e nada encontrei. Jonas se apresentava apenas como um menino saudável que dormia normalmente. Afinal! O que estava acontecendo ali?

Pedi que a mãe que se aproximasse mas ela recusou e voltou para a sala onde se sentou em uma cadeira e permaneceu estática, de costas para mim. Fui até ela e sentei a sua frente. “O que está havendo aqui? Lídia! Jonas não apresenta nenhum sinal de que esteja doente. Tente me explicar toda esta sua aflição. Vamos ver se posso ajuda-la! Me dê pistas!” Necessitava tranqüiliza-la. Se conquistasse a confiança de Lidia e ela se tornasse cooperante talvez aquela incômoda indefinição pudesse ser resolvida. 

“É difícil!” Por fim ela disse. “O que é difícil?” Continuei socraticamente, tentando extrair respostas que elucidassem aquele chamado sem fundamento. “Descrever o que acontece!” Continuou Lídia. “Por que não tenta?” Articulei procurando ser o mais simpático possível. Ela me olhou no centro dos olhos e até esboçou um sorriso nos cantos da boca. “Ninguém acredita!” Completou Lídia. E ficou voltou a um mutismo triste encarando uma fatia de pão sobre a mesa.

Fui até o quarto e auscultei o menino. Observei os reflexos das pupilas. Constatei a ausência de uma rigidez de nuca. Não havia dor à descompressão abdominal súbita. Nem adenopatia palpáveis importantes. Enquanto eu fazia isto Jonas resmungava em seu sono profundo mas não demonstrava qualquer desconforto ao ser examinado. Olhei pela porta e vi Lídia de pé ao lado da mesa, olhando para a parede do fundo da peça maior, onde ficava a pia e um fogão. Ela levou as duas mãos à boca e disse numa voz abafada: “Ai, meu Deus! Vai começar…” 

Intrigado sai do quarto e olhei na direção em que Lídia fixava seus olhos arregalados. Naquele momento, que deve ter durado 5 segundos, não mais do que isto, o que eu vi gerou em minha mente uma bolsa atemporal. Primeiro fui atingido por uma perplexidade que julgava impossível, e que foi imediatamente transformada em comunhão com a  história que Lídia deveria estar vivendo naquela noite, e possivelmente em muitas outras noites. Logo vivenciei um resumo instantâneo dos últimos anos com o grupo coordenado por Gerson. E por fim tive a sensação física, quando toda a pele de meu corpo se eletrificou ao entrar em contato com uma força incomum e estupenda, que não se enquadrava em qualquer conceito possível enquanto exteriorizava a própria existência.

Naquele ponto a parede da casa ondulava como um grande peça de tecido retorcida pelo vento. A louça e os outros utensílios chocavam-se sobre a pia e voava em cacos em todas as direções. O fogão tombou de lado obstruindo a porta dos fundos. Houve um zumbido agudo e depois um silêncio absoluto. A parede voltou a se transformar em parede. O fogão permaneceu caído, e a cozinha era um caos de panelas e talheres misturados com pedaços de pratos. 

Tive um sobressalto e acordei para a realidade quando Lídia ao meu lado soltou um profundo suspiro. Eu permaneci mudo tentando avaliar minha própria sanidade. Percebi que o gemido de Lídia não era de medo, mas de alívio. Em sua cabeça deveria estar correndo um pensamento de libertação. Não de estar livre do fenômeno, mas de estar livre da solidão. Enfim podia compartilhar. Enfim alguém poderia acreditar naquilo que ela não podia descrever. O chamado pela doença do filho fora um artifício desesperado. Mentira para atrair alguém que pudesse ver que não era louca. E eu era aquela pessoa. Eu fora preparado para aquele momento. Eu fora avisado. Mas eu não me sentia capaz de enfrentar aquela situação. Amaldiçoei Gerson e todos os que sabiam o que estava acontecendo naquela pequena casa no interior pobre de Itapeva. E ao mesmo tempo esperava que cada um daqueles miseráveis manipuladores cumprisse o seu papel. A constatação era óbvia: eu não tinha saída, e dependia da remota e distante ajuda deles.

Continuava a cair toda a chuva que os céus poderiam acumular para aquele momento especial. Entreabri a porta da frente e percebi que o motorista cochilava no interior do táxi, alheio ao que acontecia na casa. Os filhos de Lídia que dormiam no primeiro quarto eram pouca coisa mais velhos que Jonas e dormiam um sono em outro mundo.

“Quem acreditaria?” Perguntou Lídia, cansada, mas mais conformada. “Meu marido acha que sou louca! As poucas pessoas para quem me abri certamente pensam a mesma coisa. De um tempo para cá decidi ficar quieta e acho que todos pensam que eu estou voltando ao normal. É melhor assim!” 

“Há quanto tempo?” Perguntei. “Há dois anos. Acho. Quase isto. As vezes passa um tempo em que nada acontece. Depois volta tudo de novo. As coisas que estragam meu marido acha que eu quebro quando me dá uma crise! Uma cunhada minha morou aqui por dois meses para me cuidar, por causa das crianças, entende? Durante aquele tempo quase nada aconteceu e ela nunca viu nada. Você é a primeira pessoa que consegue entender o que eu digo. Hoje estava muito forte. Achei que ia enlouquecer.” 

“Você acha que a coisa pode se repetir ainda esta noite?” 

“Não sei!” Depois ficou pensativa por um longo período. Enfim completou: “ Eu sei que o doutor não pode fazer nada quanto a isto! Mas eu precisava da palavra de alguém. O padre veio benzer a casa há um ano. Ficou pior. Acho que só por saber que alguém viu as mesmas coisas eu vou me sentir mais forte. Eu já estava acreditando que tudo isto só acontecia na minha cabeça…”

“E as crianças? Nunca viram nada?” 

“Jonas sim! Mas ele é pequeno. As vezes se assusta. As vezes acha engraçado!… mas, me diga doutor! O que eu posso fazer? ” 

Então eu comecei uma preleção que surpreendeu Lidia, mas a cada momento que a desenvolvia surpreendia ainda mais a mim mesmo! Eu não tinha certeza das conseqüências daquilo que resolvera fazer mas decidi que não poderia continuar vivendo minha vida pragmática sem desenrolar de forma definitiva aquele entrave em que me envolvera quando conhecera Gerson e sua trupe. Meu medo era enorme. Minhas convicções dançavam em uma corda bamba. Era tudo ou nada. “Vamos sentar e esperar! Quem sabe este nosso amigo não resolve nos fazer mais uma visita ainda esta noite!?” 

Lídia pareceu a princípio aliviada, mas, a medida que eu adicionava uma observação ela foi se tornando tensa, talvez até duvidando da minha sanidade mental. E a noite mais anormal de minha vida teve início. 

Eu, aparentemente, conversava com a dona da casa. Fazia comentários sobre a força que havíamos presenciado, mas sem revelar o conhecimento que tinha de sua natureza. Eu sabia ser o magista, mas isto eu não tinha a intenção de verbalizar. Pretendia passar a idéia de que subestimava a força do fenômeno e que, afinal, eu não passava de um fanfarrão ignorante. Lídia, gradativamente, ficava mais preocupada.

“Eu tenho medo que esta coisa ganhe uma força que possa nos atingir…!”

“Não, não se preocupe! Até agora esta coisa só provou que pode fazer barulho, e estragar coisas materiais. Só pretende nos assustar! Talvez até tenha medo de se revelar quando há mais pessoas…” O forro da casa estalou de ponta a ponta, como se algo grande e pesado rolasse no espaço exíguo entre a forração e as telhas simples de amianto. A poeira acumulada pelos anos escapou entre as tábuas em alguns lugares e caiu como uma chuva fina de pó. “Por exemplo: nunca teve coragem de aparecer quando seu marido está em casa…” As luzes piscaram e tive a nítida impressão de que pedras grandes foram atiradas sobre o telhado. “Ele se revela por que vê em você uma mulher fragilizada que tem apenas a companhia de três crianças…”

Lídia soltou um grito e correu para o quarto em que estava Jonas. Fui atrás. Precisava controlar o meu medo. Necessitava desenvolver a tática que louca ou não me parecia a única naquela situação.

A cama se deslocara no quarto e o colchão com o pequeno Jonas pairava quase meio metro acima do estrado. Lídia desesperada agarrava a beira do colchão e tentava inutilmente alcançar o filho que estava fora de seu alcance. “Só um covarde ataca uma criança indefesa!” Gritei. “Porque não vem brincar comigo? Sua coragem não é suficiente?” 

O colchão despencou entre o estrado e o chão. Lídia caiu junto e se jogou sobre Jonas para protege-lo com o corpo. O menino acordou aos prantos. Descargas elétricas bombardearam Itapeva. As luzes se apagaram. Fui envolvido por uma atmosfera sufocante e eletrizada que me aterrorizou entorpecendo as pernas. Nesta hora busquei toda minha capacidade de concentração, no fundo de uma alma que não acreditava possuir, e mentalizei integralmente e com total nitidez o mandala de Gerson. 

Ouvi um uivo agudo e intenso. Senti que estava ajoelhado e depois caído de costas no assoalho de madeira. Um calor intenso queimava minhas orelhas. E fiquei totalmente surdo. Só o silêncio e a escuridão  me atingiram por um período que não pude mensurar. Sentia meu coração acelerado no peito e conseguia compreender que estava vivo. Aos poucos, como retornando de um sonho, ouvia ao longe o ribombar dos trovões. Depois o choro de uma criança. Depois as luzes voltaram. A parede que separava o quarto em que Jonas e Lídia se abraçavam fora arrancada e as tábuas estavam espalhadas em todas as direções. Os dois filhos maiores de Lídia estavam de pé na porta do outro quarto e olhavam assombrados para aquela cena de explosão.

Fiquei de pé, peguei minha bolsa e disse para Lídia: “Terminou. Ele foi para outro lugar!” Depois acrescentei: “Se alguém perguntar sobre o estrago diga que foi um raio!”

Abri a porta da frente e bati na janela do táxi onde o motorista ainda cochilava.

13ª PARTE – EPÍLOGO

Na véspera do Natal de 1986 eu estava sentado no alto da torre da Igreja da cidade, pensando no absurdo daquela noite tempestuosa na casa em que enfrentara o magista. Haviam se passado três anos. Percebi que Jonas se aproximava. Logo ele estava sentado ao meu lado e conversou comigo naquela maneira peculiar de enfiar as palavras diretamente dentro de minha cabeça.

“Tivemos êxito! Ele deu um pouco de trabalho na casa de Gerson. Queimou tudo que era elétrico e Gerson perdeu um olho. Mas conseguimos transforma-lo numa tranquila bola azul e o mandamos para casa. Neste momento os três estão do lado de lá. Gerson acredita que as coisas ficarão desta forma agora por uns bons tempos. Os Anunnaki estão perdendo muito sua força. Talvez em mais trinta ou quarenta anos já tenhamos desenvolvido a tecnologia que nos permita usufruir das informações que estão guardadas naquilo que atualmente se considera o nada.”

“Isto é uma loucura! Comentei.

“Claro que é!

Gritos para o vazio!

Posted 10 10UTC pmbFri, 10 Jul 2009 22:00:15 +000000Sexta-Feira 10UTC 2006 by romacof
Categories: Lascas, Políticos

Leio em ZH (10.07.09) o editorial “Anestesia Ética”, e na página seguinte “Orgulho de ser brasileiro?” de Paulo Vellinho.

Não são textos. São gritos. São GRITOS! E qual será o eco destas manifestações? Nenhum. Porque no Brasil só há uma lei: a “LEI  DA IMUNIDADE”. A ética morreu. O orgulho de ser brasileiro morreu. As injustiças e as imoralidades são a tônica. Não há um poder a quem recorrer! O Bandolerismo é o novo sistema. Que vergonha fazer parte do processo eleitoral que perpetua esta obcenidade!

A conta secreta e o voto secreto. A conta especial e o voto especial!

Posted 10 08UTC pmbWed, 08 Jul 2009 22:59:58 +000059Quarta-feira 08UTC 2006 by romacof
Categories: Lascas, Políticos

Li no jornal que o senado tem uma conta secreta de 160 milhões de reais. E que o ilustre senador responsável pelas informações sobre esta quantia não acha que o fato da conta não constar dos registros oficiais a caracterize como secreta, mas sim como especial! Brilhante! Podemos considerar a sonegação como uma manobra especial. O caixa dois como um artifício especial. O mensalão como um histórico roubo especial. As horas extras pagas, embora não trabalhadas, como um bônus especial. As fortunas não declaradas, que custeiam as campanhas políticas, e criam os comprometidos imorais, como oferendas especiais. E assim, ad eternum, os desvios poderiam receber qualquer rótulo  especial. Feitos por parlamentares especiais. Eleitos por um povo especial. Num país especial. Um país de eleitores que votam de forma especialmente estúpida.

O voto é secreto e, por analogia, graças à brilhante explicação do nobre senador, secreto – podemos admitir em qualquer nível – passa a ser especial.  Então o voto deixa de ser secreto. Passa a ser especial. E a somatória desses votos especiais pode produzir um resultado especial. A vontade especial de um povo especial. Um povo especial que é capaz e quer eliminar a corja de bandoleiros que vivem como reis infames em nosso país.

Ninguém se sente competente para se dar conta disto?

Pelo amor de qualquer deus a quem você dá graças! Você não se sente apto a erguer a sua mão e iniciar uma revolução votando como um ser inteligente?

O futebol e um sonho!

Posted 10 04UTC ambSat, 04 Jul 2009 03:26:18 +000026Sábado 04UTC 2006 by romacof
Categories: Lascas

Não sou um amante do futebol. Mas sento e assisto a uma partida a espera da beleza plástica de uma jogada fortuita ou de algum desempenho individual digno de louvor… mas não me emociono com o futebol. Não me emociono porque não acredito na lisura do processo, ou na honradez de todos os elementos envolvidos. Há direções, arbitragem, patrocínios, e  alguns atletas, que não são confiáveis. Alguns jogadores, talvez por possuírem uma mente mais tacanha poderiam ser considerados, inclusive, pelo que demonstram no confronto físico com o adversário, como indivíduos perigosos, facínoras, passíveis de um enquadramento criminal. Há critérios de julgamento nitidamente diferentes para ações de mesmo peso, o que, na somatória desequilibram o jogo, e tornam o resultado mais fruto de uma combinação de fatores aleatórios que nada se relacionam com o pé e a bola. Há narradores esportivos que não passam de torcedores numa posição privilegiada, pateticamente envergonhando a função de um locutor. O desempenho lastimável de alguns jogadores, que ganham como milionários, justificariam sumárias demissões se tudo fosse uma transação  realmente séria. Enfim, o futebol não é um esporte, é um jogo. E, independentemente do fato de que eu goste ou não, arrasta milhões enrolados em suas bandeira a vibrarem e chorarem emocionados pela sorte de seu time. Pela sorte de seu time! Cara ou coroa, muitas vezes, produziria o mesmo resultado… sem traumas, mas os torcedores fanaticamente acreditam que tudo se resolve exclusivamente pela capacidade e pela superioridade de seu time.

Mas sou gaúcho! E como gaúcho eu sou um amante do meu estado. Nos dois últimos dias assisti aos dois principais times do Rio Grande do Sul empatarem contra um time de São Paulo e umde Minas Gerais, e pelos critérios da competição foram afastados das competições de que participavam. Foram desclassificados por que foram incapazes na utilização das armas necessárias: capacidade, superioridade, sorte, e tranquilidade para enfrentar os inúmeros e visíveis fatores extra-jogo. Torci pelos dois times do meu estado. Jamais torceria por um time paulista ou por um time mineiro  por uma razão simples e definitiva: sou gaúcho. Nasci gaúcho. Eu não nasci gremista ou colorado. Estes são rótulos sem importância quando confrontados com a razão primária: eu amo o meu estado.

Testemunhei duas carreatas, dois foguetórios, duas execuções de hinos de times de fora do estado, em duas festas que se arrastaram até as duas horas da madrugada, numa cidade de dez mil habitantes. Quanta felicidade imbecil! Quanto amor à terra alheia! Que oportunidade perdida para aplaudir os nossos dois representantes que enfrentaram dois adversários fortes e conseguiram obter dois empates valentemente conquistados. Esta gente não pode ser filha de pais gaúchos. Pois, em defesa de clubismos, desonram o estado em que nasceram e a face de seus pais.

Mas ainda tenho um sonho. Ver o Beira Rio pintado de vermelho e azul, ou o Olímpico pintado de azul e vermelho. Colorados e gremistas enrolados na bandeira do Rio Grande. E os times de fora sabendo que estão enfrentando uma torcida inteligente, uma torcida que tem alma, uma torcida que ama o seu estado.

E, por enquanto, que a guerra fique para os grenais!

Há um escândalo no senado?

Posted 10 24UTC pmbWed, 24 Jun 2009 15:00:00 +000000Quarta-feira 24UTC 2006 by romacof
Categories: Lascas, Políticos

Aos sessenta o indivíduo fica mais sábio, porém mais lento. Acrescentemos: abismado - ainda que se afirme que a sabedoria permite que você fique indignado, mas não surpreso. Mas, por favor, alguém me explique! Não é roubo? Não é crime? Os seres humanos que morrem por falta dos recursos que estão sendo desviados aos milhões não estão sendo assassinados? Quaisquer outros indivíduos que não sejam senadores estariam impunes? O parlamento mais caro e inapto do planeta está sendo perdoado? O presidente Lula critica e lamenta a atenção que está sendo dada ao caso? Este disparate dito pelo chefe do executivo sugere exatamente o quê? Que a sociedade vire as costas e deixe rolar? Isto é uma piada?  Nós somos um povo tão estúpido a ponto de acreditar que o senado está sendo vítima de uma mídia inconsequente? Será que continuaremos a ser esta massa destituída de inteligência na hora de escolher seus governantes? Será que continuaremos a ser esta massa imbecil que paga para o ladrão e assiste o escárnio, de quem deveria nos servir, como se tudo isto não passasse de um simples capítulo de novela.

A Igreja não é a construção, é o conjunto das pessoas que a frequentam. Uma instituição não é uma estrutura material, mas o conjunto das pessoas que seguem seus códigos de conduta. E a Pátria? O que é a Pátria? Nós somos a Pátria. E o senado? Este é facilmente identificável: basta ver a facção de bandoleiros engravatados, imunes pelo regimento, e impunes graças à omissão dos otários que os sustentam: nós, a Pátria!

A Chave Analógica (4ª postagem)

Posted 10 23UTC ambTue, 23 Jun 2009 02:43:58 +000043Terça-feira 23UTC 2006 by romacof
Categories: Histórias, Lendas,

7ª PARTE -QUESTÕES NÃO RESOLVIDAS

 “Tudo a seu tempo Sr. Talis. Primeiro vocês necessitam das respostas sobre algumas questões que deixei em aberto. Como sempre alguns de vocês não ficarão satisfeitos com as explicações que vou dar. Alguns vão rotulá-las como fantasiosas ou absolutamente sem sentido. Mas é assim que as coisas precisam ser levadas adiante. Acreditem: se aqui eu contasse tudo o que está em jogo, como numa narrativa jornalística, digamos assim, um elo importante existente entre nós se romperia, e o trabalho até agora desenvolvido seria todo jogado fora… na verdade isto já me aconteceu uma vez e não quero repetir o erro! Antes que perguntem qual o elo a que me refiro eu lhes respondo: é a mágica, o mistério, a aventura de dar um passo sem saber qual é o seguinte, pois esta é a essência do caráter de vocês. Vocês querem as respostas agora, já, exatas, lógicas, bem encadeadas, num roteiro linear e límpido, mas, no momento em que tiverem todas as respostas o mistério morrerá, e o interesse de vocês se transformará de uma dúvida interessada em uma dúvida concreta.”

Todos estávamos fortemente ligados na narrativa de Gerson. O tom solene dava a entender que aquela reunião teria um desenrolar diferente de tantas outras anteriores. Todos esperávamos ansiosos pela continuação.

“Em alguns momentos vocês vão considerar o que digo como um devaneio, ou uma história fantasiosa sobre civilizações antigas. Interpretem como quiserem! A partir deste momento tudo que vocês não ignorarem será de grande valia, mesmo que seja apenas para manter a ponte mágica que nos une.”

“Talis! Com você a conversa será demorada e em outro dia! Evidentemente se ainda for de seu interesse, gostaríamos que fizesse uma visita ao criador de porcos de Candeias, mas isto não será agora” Talis suspirou momentaneamente aliviado. 

“Primeira pergunta: quais são as nossas armas?” Houve um movimentar-se inquieto e inseguro entre os presentes, e como Gerson parecia aguardar a resposta de alguém, Juliana tomou a frente e respondeu:

“Eu acredito, ou é desta forma que racionalizei a minha ação em Candeias, eu tenho a habilidade de detectar a localização de um poltergeist, que, de uma forma que não compreendo, não me atinge, e parece se acalmar quando mentalizo minha chave analógica” 

“Uma boa definição!” Exclamou Gerson.

Depois se voltou para mim e para Talis e disse: “Vocês dois também não são agredidos pela força a que Juliana chamou portegeist – que não deixa de ser um bom nome, embora eu prefira chamar de magista – no entanto vocês tem a capacidade de agredir esta força. Não uma agressão destrutiva, mas uma agressão restritiva. O magista se sente impelido a abandonar o lugar em que está alojado. Ele pode fazer de tudo para assustar vocês quando na verdade está se defendendo e desesperado para não ter que mudar de lugar. O magista é uma força monumental que tem a mentalidade de uma criança. Ele quer brincar. Ele quer se sentir seguro. E vocês, aos olhos dele, são como pessoas más e detestáveis. Um magista não pode atingir diretamente vocês mas pode jogar objetos ou usar de outros recursos indiretos para se defender. Para que vocês tenham sucesso ao enfrentá-lo é fundamental que o mandala que cada um recebeu seja mentalizado em seus mínimos detalhes. O momento em que isto ocorre deve ser muito bem arquitetado, pois eu, a Liana e o Julio, temos que estar em sincronia perfeita com vocês. Nós somos a outra ponta. Nós temos as armas para prender o magista. 

Minha cabeça doía muito! Gerson nunca fora tão azul! Talis, quieto desde o início, não se conteve e perguntou: “Prender a coisa? Mas afinal o que é…do que é feito, sei lá! Como você pretende fazer isto com uma força, pelo que se deduz, incorpórea? E para quê? Esta piração ainda vai se desdobrar de que forma?”

“Tenha calma. Vamos ligar os fatos. O desenvolvimento de Juliana começou quando Alexandre resolveu não pertencer mais ao nosso grupo. Ali eu disse que de uma forma indireta havia se aberto uma porta que nos seria favorável. Juliana conseguiu perceber a existência do magista. Sabemos que o magista é uma força poderosa, que só de uma forma especial pode ser controlada. Agora vou dizer para vocês de que forma podemos usar esta força a nosso favor. Ou de que forma poderemos cumprir o nosso objetivo como grupo. A processo de como podemos prender o magista é irrelevante. Na verdade, para o bem de vocês: Juliana, Talis e Ronaldo, nem é interessante saber como isto será feito. Mas acho importante que todos saibam que há um grupo de inimigos que tentam de todas as formas impedir que tenhamos sucesso. É interessante saber por que estes inimigos agem desta forma.” Respondeu Gerson. 

“Mas antes quero que todos saibam que hoje recebi a notícia do falecimento de Alexandre. Isto já estava escrito mas a morte nunca deixa de nos tocar. É um bom momento para ficamos em silêncio e pensar em tudo o que foi dito até aqui.”

8ª PARTE – HISTÓRIAS ANTIGAS E ELOS PERDIDOS

E realmente se fez um momento de silêncio. Um silêncio constrangido. Cada um de nós elaborando a própria relação com o controverso indivíduo que todos conhecíamos como Alexandre. Uma personalidade agressiva e envolvente. Inteligente e que possuía os elementos considerados úteis para ser um advogado de sucesso. Que pertencera a um grupo maluco que esperava encontrar, convivendo com Gerson, respostas às velhas questões sobre os mistérios da vida, da origem, do destino, e dos limites do homem frente à realidade e seus aspectos mágicos. Um personagem jovem que usara um poder sobre o qual não tinha domínio e fora vitimado por este poder. Um jovem que convivera conosco e agora estava morto.

O silêncio foi suavemente preenchido pela voz monocórdica de Gerson quando iniciava seus longos monólogos.

“Quando as primeiras civilizações humanas se estabeleceram na Mesopotâmia, e nos vales do Indo e do Nilo, a presença dos Nifilim sobre a terra estava em seu declínio. Mas seu conhecimento ainda era colossal. Na tradição suméria se afirmava haver uma relação íntima, genética, entre O Nefilim Enki e os descendentes do gênero Homo sapiens. Enki era considerado um deus benéfico aos olhos dos primeiro humanos que viveram entre o Tigre e o Eufrates. Ao contrário da tradição judaico-cristã que o representava como a serpente que mostrou ao homem o fruto do conhecimento para o bem e para o mal. As castas inferiores dos Nefilim, os Anunnaki, viam no crescimento cultural do homo sapiens o fim de sua supremacia e, com o apoio da elite ainda reinante, liderada por Enlil, irmão de Enki, por todos os meios tentaram impedir que Enki transmitisse conhecimentos aos seus protegidos. A história dos Nefilim na Terra, seus objetivos e suas cidades pré-diluvianas na mesopotâmia. A relação entre a necessidade de mão de obra no trabalho de mineração na África e a transformação do homo erectus em um trabalhador escravo é uma longa e complexa história que culmina no surgimento do próprio gênero humano moderno, numa trama rica e polêmica que dá origem a todas as culturas religiosas que existem atualmente sobre a face da Terra. Mas isto ocorreu há mais de 6 mil anos e é um outro capítulo, muito interessante, mas que foge do nosso objetivo imediato, que é a mobilização de forças levadas a efeito por Enki para que o conhecimento de sua espécie permanecesse ao alcance dos humanos, para ser acessado e utilizado gradativamente, de acordo com o grau de maturidade de nossa espécie, no que a tradição convencionou chamar de registros acádicos.” 

Gerson fez uma pausa, olhou em volta, mas não houve perguntas.

“Todos sabem que a palavra átomo perdeu seu significado há muito tempo. Hoje as partículas subatômicas, que compõe o núcleo do que antes era considerado indivisível, são comprovadamente compostas por outras partes menores… e em breve se saberá que o interior de cada uma destas partes, aparentemente, será composto por um paradoxal e incongruente nada! E digo aparentemente, porque a princípio nossa tecnologia será incapaz de observar a magnífica rede que une cada um destes interiores vazios. Um banco de dados que escapa de nossa compreensão dimensional. Uma porta não para outra dimensão, mas para uma miríade de possibilidades paralelas. Onde cada partícula, que os teóricos estão chamando de quark, se conecta com qualquer outra em qualquer parte do universo através de seu nada interior.”

Gerson fez uma pausa maior dando a entender que mudaria o rumo na narração mas que as partes tinham relação entre si.

“Existe uma brecha entre a nossa dimensão e aquela em que os registros acádicos estão armazenados. Esta pequena abertura, esta fresta, é dinâmica, e está presente em todos os lugares. Realmente em todos os lugares onde existir um núcleo de um átomo, onde existirem próton e nêutrons, onde existem os pequenos quarks em seus interiores.”

“Sabemos que duas forças de mesma polaridade se repelem. Dois prótons positivos se repelem. Então como é possível mantê-los no interior dos núcleos sem que haja uma desintegração total? Isto é possível graças a um equilíbrio dinâmico que ocorre entre os 3 quarks que compõem um próton ou um nêutron. Na prática, a volubilidade entre as cargas gera um artifício tão fugaz e oscilante que as positividades existentes não chegam a se estabelecer o tempo necessário para a repulsão.” 

Alguns de nós se mexeram inquietos pois naquela época estes conceitos estavam apenas nascendo e o desconforto pela não compreensão se tornou evidente. Julio comentou: “Gerson! Podemos até acreditar em sua explanação… já li em algum lugar que estes conceitos não passam de uma ficção matemática, mas, no que nos diz respeito, como podemos entender a tal abertura…e onde entram os Anunnaki e Enki nesta história?”

“A abertura pode ser encontrada na colisão de partículas! Há experimentos neste sentido. Num determinado momento, uma partícula até então desconhecida, abrirá uma porta entre estas dimensões. Para que isto aconteça a colisão que se pretende deve acontecer. Ela não pode ser evitada. O que os Anunnaki pretendem, pois alguns deles ainda vivem entre nós, é que o ser humano seja incapaz de obter este avanço tecnológico que leve ao encontro da brecha entre as dimensões. O que Enki nos deixou, pois ele não está mais entre nós, é um truque para que os Anunnaki nunca consigam o seu intento.”

“Pois bem! Aqui entra um pouco de mágica! Pelo menos aos nossos olhos pragmáticos e acostumados a esta pequena ilha dimensional em que todas as coisas devem seguir as regras de Newton ou não existem.”

“O magista, embora seja uma força poderosa é imatura. Ele pertence à dimensão onde estão os registros acádicos. Passou para nossa dimensão por ação de alguma manobra Anunnaki. Avaliem o magista como uma criança. Ele quer brincar, não importa onde e nem com o quê. Neste momento usa sua força brincando com os porcos, como Juliana nos descreveu. Nosso objetivo é recolocá-lo em sua verdadeira dimensão. Esta foi a herança que Enki nos deixou: enquanto os magistas, que sabemos serem três, estiverem em sua dimensão, o brinquedo favorito deles será infernizar a vida dos Annunaki. Nós temos os meios de devolver este magista para o lado de lá. Assim mantemos este jogo, procurando nunca perder a possibilidade de um acesso total ao registros acádicos. Acreditamos que apenas uma vez os três magistas estiveram num mesmo tempo em nossa dimensão. Isto aconteceu durante a Idade Média, embora nunca tenham deixado de existir grupos, como o nosso, que persistiram na luta contra os Anunnaki”.

Eu ponderei: “Você concorda, Gerson, que mesmo com tantos sinais insólitos vivenciados em sua companhia, esta trama toda fica fantasiosa e inverossímil. Os elementos básicos ocorrem em lugares, ou dimensões, como você expôs, às quais não temos acesso. Fica difícil acreditar numa força infantil, que não pertence à nossa dimensão, e que foi criada para manter afastados pretensos inimigos da raça humana de um manancial de conhecimentos. Mesmo depois de Talis fazer, seja lá o que ele necessita fazer para que o plano de devolver o magista a seu mundo funcione, nós, os observadores, teremos apenas uma opção:ajudamos a salvar o mundo de uma nova idade das trevas e acreditamos nisto como um ponto de fé. Ponto. Pois, na prática o mundo continuará a girar da forma que conhecemos…e ainda: as chaves analógicas nunca nos dariam acesso aos registros acádicos como você nos fez crer no início, ou você teria algo a acrescentar!”

“É, de certa forma será bom vermos o mundo girando da forma que estamos acostumados…as outras formas talvez não sejam agradáveis. É verdade, as chaves analógicas ou mandalas não dão acesso direto aos registros…eu menti! Ou torci a verdade para que vocês permanecessem fisgados. As chaves vão ser úteis, mas de outra forma… aguardem e verão! Mas tenho umas ressalvas. Os magistas não foram criados para este fim. Eles já existia muito tempo antes dos Nefilim. Enki apenas os prendeu entre as duas dimensões. Aproveitou que são entidades que não evoluem e têm em sua essência unicamente o desejo de brincar e os colocou num lugar onde poderiam brincar eternamente, enquanto impediam os Anunnaki de nos prejudicar. Outra correção: os Anunnaki não são exatamente inimigos da raça humana. De certa forma eles apenas pretendem preservar um conhecimento que consideram propriedade sua e, possivelmente, nos julguem, inaptos ou inferiores. Talvez até temam o uso que a nossa espécie possa fazer de tal conhecimento. Nós, por nossa parte, pretendemos continuar a evoluir, ascender, e quem sabe, chegar ao Princípio!”

“Princípio?” Perguntou Luana. “Que Princípio?” 

9ª PARTE – DEVANEIO 

Gerson fechou os olhos e começou uma estranha resposta:

“No princípio e no fim era o nada e o Princípio pairava sobre a eternidade espaço-tempo. Há quantos éons? O Princípio observava o caótico modificar do nada. A matéria perdera todas suas formas, e a energia, que era ao mesmo tempo a própria essência do Princípio, parecia, gradativamente, obedecer a leis físicas de um limiar cósmico nada promissor. O Princípio sabia que aquilo que chamamos de nada era o princípio do tudo. Sabia que não havia diferença entre estes dois conceitos aparentemente contraditórios, mas sabia que isto causaria (ou já havia causado – já que o tempo era apenas uma questão de ótica) uma grande confusão em estágios em que o Princípio procurara sua maturidade…!) Afinal o Princípio não seria possível sem o Fim. Afinal o Fim era o objetivo do Princípio. Afinal a tendência ondulatória do grande mistério cósmico criava este aparente paradoxo.”

“O nada apontava para um estágio entrópico nulo. As infinitas espécies orgulhosas que ergueram civilizações, já há bilhões de anos, haviam voltado ao pó. A luz dera lugar à escuridão total. Os famintos horizontes de eventos dos engolidores de galáxias agregaram-se aos elementos da grande atração. O Universo agonizava.”

“Para o Princípio o centro do universo era o lugar ocupado por ele. Qualquer lugar era o centro! A expansão universal, com suas acelerações misteriosas, levando pela atração ao infinito impossível as colossais massas estelares, só colocaram todas as coisas materiais em um único lugar: no lugar ocupado pelo Princípio. Para o Princípio era irrelevante a diferença entre os conceitos opostos de: para fora até o infinito inimaginável ou: para o centro até uma singularidade única. O Infinito distante era o próprio centro único! pois o centro único era qualquer ponto onde se encontra o Princípio, e o Princípio se encontrava em qualquer lugar. Aquilo que se distanciava na verdade caía. Caia para a singularidade final. Caía para a singularidade inicial. E este mistério significava apenas uma verdade: o universo agonizava. E com o fim do universo, e daquela especial organização da energia, seria o fim do Princípio.”

“O Princípio, acostumado aos bilhões de anos, percebia, já há algum tempo, que a temperatura se modificava. O gelo do universo agonizante dera lugar, paulatinamente, a um tênue mas crescente calor. A singularidade se aproximava. O tempo, aparentemente eterno, fluindo na mesma direção e num mesmo ritmo há incontáveis eras, ganhava um elemento novo: aceleração!”

“O Princípio sabia que quando há aceleração no elemento temporal e uma singularidade se aproxima um grande evento acontecerá: o fim de todas as referências dimensionais definidas pelas leis físicas daquela ondulação universal.”

“Este é o Princípio, Luana. E para a nossa espécie fazer parte dele contamos em breve com as ações de nosso bravo guerreiro Talis! Não é Talis?” 

Talis acordou para a realidade sentindo o peso de toda a evolução sobre seus ombros.

Sou arrogante!

Posted 10 15UTC ambMon, 15 Jun 2009 01:35:42 +000035Segunda-feira 15UTC 2006 by romacof
Categories: Lascas

Sou gaúcho, e sou arrogante. Ser arrogante com um igual é sinal de altivez e nobreza. Ser arrogante com um indivíduo menos favorecido pela sorte e  pela inteligência é sinal de soberba. Esta postura deve ser banida da alma gaúcha. Nunca, mas nunca mesmo, se deve ser arrogante com os pobres de espírito. Eles não tem culpa! Devemos tratar estes seres com cortezia e respeito por sua triste sina. Esta regra só  não se aplica aos senadores. Estes não são nativos nem do país do norte.  São bandoleiros. Estes só merecem o nosso desprezo.

O Senado e as Putas

Posted 10 12UTC pmbFri, 12 Jun 2009 12:31:22 +000031Sexta-Feira 12UTC 2006 by romacof
Categories: Lascas, Políticos

Acabo de ler no jornal que “o senado está constrangido, envergonhado” com os inúmeros atos ilícitos que comete! Os atos em que escancara a nossa impotência burra e estupra a nossa inteligência com as doutas e  sorridentes  gravatas. Os atos que violentam as necessidades públicas com milhões mal aplicados. O senado brasileiro hoje é a puta mais cara da história. A mais falsa!  E a mais inútil! Aquelas, pelo menos, proporcionam prazer!

Expo Walk no Walk Show

Posted 10 08UTC pmbMon, 08 Jun 2009 15:13:16 +000013Segunda-feira 08UTC 2006 by romacof
Categories: Luzes

http://www.walkshow.com.br/materia.asp?c=2847

Visite o Walk Show e deixe aqui (nos comentários) a sua opinião sobre esta postagem .

Expo Walk

A Chave Analógica – (3ª postagem)

Posted 10 03UTC ambWed, 03 Jun 2009 02:34:42 +000034Quarta-feira 03UTC 2006 by romacof
Categories: Histórias, Lendas,

Car0 Sé! A história é longa e sempre chega a hora em que as chaves podem aparecer! Por exemplo: agora você se pergunta: “Mas afinal! em que dimensão esta narrativa ocorre? Elementos ocasionais fazem pensar que não se trata se uma ficção! E o nada? aonde entra nesta história (quando seria mais preciso dizer: quando se entra no nada para que a história tenha sentido!?!). 

Tem uma história no meio disso, que foi contada pelo Gerson quase como um devaneio, em que você vai ler palavras suas, e vai entender porque as vezes eu repito as suas perguntas e pergunto: “São retóricas?” Você já sabia – lá naquela parte do cérebro que nós não sabemos para que serve – você já sabia!

Tudo parece um jogo de palavras mas são palavras que delimitam um jogo. O jogo. O único que merece ser jogado. Os conceitos de vida e morte são palavras jogadas sobre eventos muito efêmeros.  O nada é muito maior, e está lá, a espera, como uma rede a espera dos peixes…

De um quark a outro, como cômodos de uma casa infinita, todos interligados, partes de uma mesma coisa, um único e universal e aparente nada. Onde todas as respostas ecoam há um pouco menos de 13,5 bilhões de anos (pelo menos desta vez). Um nada onde a diferença entre o ver e o olhar é fundamental. Nem sempre aquele que olha vê. Pois para ver nem é preciso olhar…!

Ah!   as chaves não são importantes. As fechaduras sim, estas são importantes.As vezes achar um chaveiro pode ser interessante…!==============================================

 

6ª PARTE – A MISSÃO DE JULIANA

Eu já havia tomado uma decisão: Candeias não faria mis parte de meus planos futuros. Uma cidade pequena, receptiva, oferecendo uma atraente oportunidade profissional, mas agora envolvida em uma história mal contada. Muitas coincidências enroladas no mistério das ações dos meus companheiros “de-coisas-loucas”. Somado a isto havia o fenômeno das cores em volta das pessoas, com desdobramentos desagradáveis fora do ambiente em que as pessoas do grupo estavam envolvidas. E, o mais importante, ou preocupante, sem qualquer participação de minha vontade. Talis se adaptou mais facilmente àquela novidade e por vários dias defendeu de forma obsessiva o conceito das auras. Mas eu não gostei da idéia da permanecer indefinido entre possuir a visão de um iniciado ou ser portador de um paroxismo epiléptico. As crises ocasionais de dores de cabeça eram intensas e nenhum argumento esotérico me convenceu a aceitar de bom grado aquele “poder” inconstante e involuntário. Consultei um neuro e um oftalmologista (omitindo politicamente os detalhes que teriam me brindado com um repasse a um psiquiatra), mas aparentemente nada preocupante foi encontrado. Na época existia um medicamento para cefaléia que possuía butalbital (similar a um barbitúrico) na fórmula, e foi com este remendo que consegui suportar as dores. Passei um bom tempo sem me encontrar com os outros “guerreiros”. Talis me mantinha informado das notícias mais importantes. Eu, nesta época, procurei concentrar todos os meus esforços em minha profissão, e, a cada dia ficava mais evidente que ir embora de Porto Alegre era a melhor saída. Já havia visitado por duas vezes a pequena cidade de Itapeva, próxima ao litoral, onde não teria as facilidades que encontrara em Candeias, mas em que o meu trabalho seria muito bem recebido.

Um dia encontrei Talis e Julio na Sarmento Leite, na esquina da Faculdade de Medicina. O Talis estava pálido. O Julio falante e excitado.

“Amanhã tem reunião na casa do Gerson. A Juliana tem umas boas histórias para contar. É para todo mundo ir.” Deu um tapa nas costas no Talis que o desequilibrou. “O Talis, aqui, não vê a hora se saber os detalhes. Não é Talis?” Talis abanou a cabeça com os olhos parados e com a boca muda. Estava borrado de medo.

Pensei: “Não vou! Está na hora de cortar os vínculos com a turma. Logo vou embora daqui. Vamos botar os pés no chão e esquecer esta história de querer achar a porta para um mundo mágico!”. Mas no dia seguinte lá estava eu. Com cara de homem sério, mas tão curioso como todos os outros.

Gerson saudou a todos de uma forma mais pomposa do que o habitual. Pediu desculpas por ter se ausentado além do previsto, mas acrescentou que acreditava na compreensão dos amigos, afinal, disse: “É preciso trabalhar de vez em quando, pois um homem não pode ficar todo o tempo brincando de guru!” Enquanto isto Juliana mostrava-se visivelmente ansiosa em iniciar o seu relato. Liana e Julio estavam sentados no chão ao lado da poltrona em que Talis havia se acomodado. Um Gerson azulado ocupou o centro do sofá maior tendo eu e Juliana ao seu lado. Enfim o velho voltou sua atenção para Juliana.

“A informação que eu tinha era de que algo estranho estava acontecendo na criação de porcos de um morador de Candeias.” (Soube que o proprietário era o médico que eu iria substituir no hospital da cidade. A tal criação de porcos não era um estrutura simples. Contava com um frigorífero imponente. Ele exportava carne para vários países, e esta era sua atividade principal. Ele estava ansioso para que alguém o substituísse na atividade médica.). “No meio da noite os animais enlouqueciam. Vários, misteriosamente, conseguiam amanhecer fora dos galpões. E alguns morriam, segundo o diagnóstico dos veterinários, de enfarto, tamanho o estresse sofrido nestas ocasiões”.

“Todas as possibilidades que poderiam ser as causadoras do transtorno foram analisadas. Predadores, doenças, envenenamentos, ação de vândalos. As coisas aconteciam invariavelmente à noite, mesmo com todas as luzes acesas e na presença de vários técnicos e do proprietário. O que chamou a atenção do Gerson foi uma história contada por um dos funcionários que afirmou ter visto um dos animais ser lançado em um vôo impossível sem que nenhuma ação justificasse o fato.”

“Então!” – interrompeu Julio – “a super Juliana chegou com seus poderes para solucionar o caso”!

Juliana, sem dúvida se mostrava bem mais segura do que nós a conhecíamos anteriormente, e retrucou: “Ora Julio! Não se faça de bobo! Você sabe que não posso resolver casos, como você está insinuando! O fato, isto é preciso ficar bem claro, é que eu não sei como funciona, apenas procuro seguir as instruções que o Gerson me deu… fico com muito medo, é claro! mas acredito que nada de mal vai me acontecer se eu fizer as coisas certas. Só faço a minha parte, e acredito, preparo o terreno para que outro termine o trabalho. Se vocês quiserem saber o resto eu continuo…”

“Vai em frente, guria! Não esquenta com o que digo! Talvez eu esteja é com um pouco de inveja por não ter participado desta sua aventura!”

“Bem…” – seguiu Juliana – havia alguma coisa lá! Eu não vi esta coisa. Mas vi porcos rodopiarem no ar. E senti aquela eletricidade que deixa todos os teus cabelos de pé. E quando consegui ficar calma, e me convenci de que aquela coisa não podia me atingir, mentalizei meu mandala até poder vê-lo desenhado na minha frente. Então tudo ficou muito quieto, os gritos dos porcos e o som das máquinas se transformaram em um silêncio pesado que aos poucos foi sendo substituído por um zumbido quase ensurdecedor que terminou repentinamente num estalo elétrico. E os porcos foram se acomodar roncando como os porcos fazem para achar um lugar para dormir, e tudo ficou em absoluto silêncio. Mas minha nuca me dizia que a coisa continuava lá, me observando, me analisando, aparentemente sem poder me atingir. Os acontecimentos, me disseram, ficaram bem mais raros, mas a coisa continua lá….! E foi isto que aconteceu! “

“Alguma pergunta?” questionou Gerson.

 “Aonde eu entro nisso?” Cuspiu Talis! e sua rapidez e ansiedade foram tão evidentes que todos rimos, até o próprio Talis, mas Gerson não riu e, como sempre iniciou uma longa preleção, que parecia não ter ligação alguma com aquilo que acabáramos de ouvir.